A Observação do céu   

 

 

        Para o nosso primeiro contato com o Universo, devemos procurar locais livres de obstáculos que nos impedem de observar o céu em toda sua amplitude, de um lado ao outro do horizonte. Longe das luzes ofuscantes das cidades, o que só podemos obter em lugares mais afastados, nas noites límpidas, sem Lua e sem nebulosidade, poderemos assistir a um dos espetáculos mais indescritíveis: toda a abóbada estrelada.

 

      A beleza do céu estrelado nos produz uma profunda emoção. Simultaneamente somos possuídos por um enorme sentimento de incapacidade para compreendê-la. Julgamos que são necessários conhecimentos fora do comum, grande inteligência e um instrumento possante para conseguir decifrar o céu, ou seja, saber o nome de cada constelação e de suas respectivas estrelas. Mas tudo é possível mesmo com a vista desarmada, ou com instrumentos modestos, uma carta celeste e um pouco de paciência.  

 

        O principal será saber usar a visão, o mais importante instrumento de um iniciante nos mistérios do Cosmo. O olho humano é o instrumento ótico que melhor se adapta, automaticamente, às mais diferentes circunstâncias. Os defeitos da visão, como a miopia, hipermetropia e astigmatismo, quando corrigidos convenientemente por óculos ou lentes corretivas, não constituem um obstáculo.

      Na obscuridade, a sensibilidade do olho pode se tornar 200 mil vezes superior à visão em pleno dia, à luz do Sol, graças ao aumento do diâmetro da pupila e sobretudo à formação da púrpura retiniana, substância vermelha fotossensível, que se forma na obscuridade.

      Assim, é preciso um intervalo de quase uma hora no escuro, para se beneficiar inteiramente desta vantagem. Um intervalo de 15 minutos é o mínimo para que se inicie qualquer observação, seja a olho nu ou com um binóculo ou telescópio. No caso de incidências periódicas de luzes, o processo de adaptação da retina começará a sofrer retardamentos que poderão prejudicar a readaptação ao escuro. Convém evita-lo protegendo-se o olho das luzes mais próximas. A difusão das luzes das cidades na atmosfera fará com que a observação se limite às estrelas mais brilhantes; mesmo assim, será possível iniciar um estudo do céu.

 

     

  Para compreender os movimentos do céu sem nenhum instrumento astronômico, convém ficar algumas horas, à noite, observando os deslocamentos das estrelas. Além das esteira leitosa – a Via Láctea – que atravessa o céu, irão surgir subitamente um ou mais riscos luminosos - os meteoros – cortando o fundo azul-escuro da imensa cúpula salpicada de pontos luminosos – as estrelas.

 

      Quando se contempla atentamente o céu no decorrer de uma noite límpida, a primeira coisa que nos impressiona é o fato de todas as estrelas em conjunto se deslocarem ao redor de um mesmo ponto. Pela manhã, quando o Sol faz a sua aparição, iremos constatar que ele também parece se deslocar no mesmo sentido das estrelas. No meio de uma planície, ou em pleno oceano a nossa visão será limitada por um imenso planalto circular cujo limite se denomina horizonte.

      O Sol parece surgir sempre do mesmo lado do horizonte – leste - , de onde sobe até atingir uma posição elevada e em seguida desce para um ponto do horizonte oposto – oeste - . Se nos colocarmos de tal modo que o leste esteja à direita e o oeste à esquerda, teremos à nossa frente o norte e, atrás, o sul. Se colocarmos um poste perpendicular ao solo, o seu prolongamento irá perfurar o céu em um ponto acima de nossa cabeça: o zênite. Prolongando este mesmo poste em sentido oposto, teremos do outro lado do globo terrestre o nadir. A linha ideal que este poste representa é a vertical desse local que pode ser materializada pela direção do fio de prumo que os pedreiros empregam para elevar um muro verticalmente ao solo.

 

 

Desta observação a olho nu podemos constatar o seguinte:

 

         As estrelas aparecem do lado do horizonte e deslocam-se paralelamente no céu em direção ao lado oeste, onde desaparecem. No entanto, se observarmos as regiões acima do horizonte sul, notaremos que as  estrelas     parecem girar ao redor de um ponto: o pólo celeste sul. No entanto, este movimento diário das estrelas é aparente.

 

 

         O que na verdade acontece é que a Terra ao girar ao redor do seu eixo de rotação nos passa a sensação de que todas as estrelas (inclusive o Sol) e também a Lua estão girando em torno da Terra continuamente. O ponto ao redor do qual as estrelas descrevem círculos concêntricos é aquele em que o eixo da Terra prolongado perfuraria a esfera celeste. Um observador, nos pólos terrestres, seja no norte ou no sul, veria as estrelas girando paralelamente ao horizonte, continuamente, e nunca nascerem ou se  porem no horizonte. Um outro observador, no equador terrestre, veria as estrelas nascerem e se porem perpendicularmente no horizonte. Tal deslocamento é o movimento aparente diurno provocado pela rotação terrestre.

                                                                 

                                                                                                equador terrestre

     pólos

 

        Observando sempre num mesmo lugar, o observador verá que uma mesma estrela aparece e desaparece todos os dias em um mesmo ponto do horizonte. Todavia, de um dia para outro, o observador irá notar que uma mesma estrela aparece e desaparece 4 minutos mais cedo. Em um mês, este avanço será de duas horas  (30 dias x 4 minutos: 120 minutos, ou seja, 2 horas). Assim, o céu de 1º  de setembro, às 20 horas, será o mesmo de 1º de agosto às 22 horas. Por este motivo, se observarmos o céu sempre à mesma hora, veremos que o seu aspecto se modificará: algumas estrelas deixarão de ser vistas e outras surgirão. Num intervalo de seis meses, todas as constelações visíveis serão diferentes, se observarmos o céu em uma mesma hora e num mesmo local. No final de um ano (365 dias x 4 minutos = 1.460 minutos = 24,33 horas), teremos aproximadamente 24 horas, ou seja, estaremos de volta à situação inicial. Tal fenômeno é o movimento aparente anual, causado pelo movimento da Terra ao redor do Sol, em um ano.  

 

  Ao observarmos as constelações junto ao horizonte, iremos  vê-las aumentadas, com  as   estrelas      mais afastadas  entre si, o que irá ampliar e deformar o seu desenho característico, como aliás ocorre com o Sol e a Lua quando próximos ao horizonte. Ao passarem pelo zênite, as constelações parecem menores.

 

     

 

Identificando as estrelas

 

     Para observar as principais estrelas não é necessário um conhecimento preliminar de Astronomia, principalmente se essa observação do céu estrelado tiver como objetivo satisfazer a curiosidade de saber e/ou compreender a posição do Homem no universo sideral. O reconhecimento das constelações pode ser realizado num período de tempo muito curto, ao fim do qual várias estrelas poderão ser identificadas, principalmente as mais brilhantes.

       Este método, que se baseia essencialmente na memória visual, consiste em duas principais etapas: conhecer e memorizar algumas constelações de dimensões e formas características. Com este objetivo deveremos fixar e/ou escolher no céu grupos de estrelas de referências facilmente reconhecíveis, muito diferente entre si para não serem confundidas e, por outro lado, muito bem distribuídas na abóbada celeste para permitir um melhor reconhecimento de todo o céu. Com base nestes grupos estelares iremos, por curtos alinhamentos entre as estrelas, mais brilhantes, localizar e identificar o conjunto das constelações que desejamos estudar.

 

                 

 

Observando as estrelas e constelações

        Para melhor identificar as constelações e as estrelas, convém estar munido de um mapa celeste e de uma pequena lanterna elétrica, de preferência com luz vermelha, para iluminar o mapa. Se você não conhece os pontos cardeais (leste,oeste,norte e sul) é conveniente utilizar uma bússola. No entanto, se você já aprendeu a localizar o Cruzeiro do Sul, o mais lógico será orientar-se por ele, prolongando o eixo maior da cruz quatro vezes e meia para localizar o pólo sul da esfera celeste.

 

      

     Para observar as estrelas e/ou as constelações próximas ao horizonte, a melhor posição é colocar-se de pé, voltando-se sucessivamente para os pontos cardeais. Para as estrelas e/ou constelações próximas ao zênite, a posição mais cômoda do observador é manter-se deitado no solo. De início, o observador se orienta colocando seu mapa entre ele e o céu, fazendo coincidir o norte do céu com o norte da carta.

 

     O processo será olhar o mapa desta direção (com a luz da lanterna), baixar o mapa, e procurar no céu, na posição correspondente, a mesma constelação observada no mapa. Este ato de ficar com a cabeça para trás, levantando os braços para observar o mapa e depois abaixando-os para observar o céu, poderá ser um exercício cansativo. Aconselhamos observar de pé as estrelas próximas ao horizonte, dirigindo-se sucessivamente para cada ponto cardeal indicado no mapa, e observar deitado no solo quando a estrela estiver no zênite.

 

     Para encontrar as estrelas ou constelações devemos estabelecer relações de proximidade com as outras já conhecidas, usando-se os pontos cardeais. Por exemplo, a  oeste do Cruzeiro do Sul, a leste do Centauro. Pode-se-ia também dizer acima, abaixo, á direita e à esquerda. A linha imaginária que, ligando duas estrelas conhecidas, permite encontar, em linha reta, outra estrela ou constelação, deve ser estabelecida no mapa celeste. Em seguida, transfere-se essa linha imaginária e a sua relação de proximidade para a observação no céu.

 

A escolha do mapa celeste

 

     O mapa celeste pode ser um planisfério, ou seja, uma representação retangular de toda a esfera celeste. Ele tem o incoveniente de deformar, ampliando os desenhos e os espaços, todas as constelações situadas ao redor dos pólos celestes (constelações circumpolares).

 

     Outro tipo de mapa celeste é a representação da esfera celeste em vários círculos. A vantagem é não deformar as constelações circumpolares. Em geral, nesta representação o emprego de várias cartas celestes evita as deformações, mais obriga o uso de vários mapas para representar a variação do aspecto do céu nas diversas horas de uma noite ou de várias noites numa mesma hora.

 

     Um outro mapa muito prático é a carta celeste móvel ou giratória que fornece a representação do céu estrelado visível a qualquer dia e hora.

   

Como reconhecer os planetas

     Os planetas apresentam uma luz fixa, sem cintilação. Em circunstâncias excepcionais, quando a atmosfera está muito agitada, e/ou planeta se encontra muito baixo no horizonte, pode apresentar cintilações. A ausência de cintilação provém do fato de a imagem do planeta ser constituída de um pequeno disco com diâmetro aparente sensível, ao contrário das estrelas que, mesmo através de um telescópio, se apresentam como um ponto luminoso.

 

     Os planetas se deslocam na esfera celeste como astros errantes, donde aliás o seu nome planeta, em oposição às estrelas que se agrupam em figuras imutáveis. Eles não se afastam muito da eclíptica, trajetória aparente do Sol. Devemos procurá-los nas treze constelações eclípticas, ou seja, na constelação de Ofiúco e nas constelações zodiacais: Áries, Touro, Gêmeos, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes.

 

     Se observarmos sistematicamente a posição de um planeta, veremos que a partir de um determinado momento, ele “inverte” por algum tempo o  sentido do seu movimento, para logo em seguida retornar ao sentido anterior, descrevendo no céu uma “laçada”, que levou os antigos a dar o nome de planeta (astro errante). Trata-se do chamado movimento retrógrado, que ocorre em virtude das diferentes velocidades e distâncias percorridas pelos planetas em sua trajetória ao redor do Sol.

     Os planetas inferiores – Mercúrio e Vênus - , por terem as suas órbitas no interior da Terra, se afastam muito pouco do Sol. Eles nascem e se põem pouco tempo antes e depois do Sol. Ora avançam, ora retrocedem, parecendo percorrer as treze constelações eclípticas no intervalo de tempo de um ano.

 

     Os planetas facilmente visíveis a olho nu – Marte, Júpiter e Saturno -, os pouco visíveis Urano e Netuno são todos planetas superiores – por terem suas órbitas exteriores à órbita da Terra. Eles podem ocupar as posições mais diversas em relação ao Sol, nas constelações eclípticas. Todos eles permanecem durante muito tempo em cada uma das constelações eclípticas, salvo o planeta Marte, em virtude do seu lento movimento de revolução ao redor do Sol.

 

     Os planetas mais brilhantes são Vênus e Júpiter, que poderão ser reconhecidos sabendo-se a constelação eclíptica que ocupam. Tão fácil é reconhece-los que poderemos inverter o problema e usá-los para identificar a constelação na qual se encontram. Vênus é tão luminoso, cerca de doze vezes mais brilhante que a estrela Sírus, que é impossível confundi-lo com outro objeto celeste. Conhecido como  Estrela D’alva e Estrela Vésper, quando, respectivamente, estrela da manhã ou estrela da tarde, não brilha jamais no meio da noite.

     Vênus é o primeiro astro a aparecer no crepúsculo da tarde ou o último a desaparecer na aurora. Durante dez meses é visível como estrela da manhã, do lado leste (nascente), antes do nascer do Sol, e depois outros dez meses, como estrela da tarde, do lado oeste (poente), logo depois do pôr-do-sol. Entre estes dois períodos, durante as suas conjunções com o Sol, Vênus é inobservável, durante três ou quatro meses, em virtude das luzes ofuscantes do Sol. Em caso de dúvida na identificação, a observação através de um binóculo ou luneta irá mostrar as fases do planeta. Vênus, como a Lua, também apresenta fases.

     Júpiter, o segundo planeta mais brilhante, é facilmente reconhecível pela sua coloração branco-prateada e pelo seu brilho, às vezes superior ao de Sírius. Para verificar ou comprovar a identificação realizada a olho nu, um pequeno binóculo será suficiente. Com efeito, com um binóculo será fácil observar seus quatro principais satélites: Io, Europa, Ganimedes e Calisto, que trocam de posições de um dia para outro, em relação ao planeta: algum deles pode estar oculto pelo planeta.

 

 

   

           Os outros planetas apresentam brilho comparável às estrelas brilhantes conhecidas.

       Marte é um dos planetas mais fáceis de serem reconhecíveis em virtude de sua coloração avermelhada, pois só existem no céu três estrelas vermelhas de brilho comparável: Antares, Betelgeuse e Aldebarã.

                       

 

      Saturno, com seu brilho branco-pálido, ligeiramente chumbo, será fácil de ser localizado se conhecermos a sua posição no céu, ou melhor, em que constelação está situado. Seu contorno alongado, em virtude dos seus anéis, irá facilitar a sua identificação. Podemos observar os seus anéis e satélites se possuirmos um telescópio.

 

                                                                                                                                                

 

          Mercúrio, sempre muito próximo do Sol, é um planeta de observação difícil por se encontrar visível sempre próximo ao horizonte, região do céu quase sempre tomada pelas nuvens.

         Um último conselho: para facilitar a identificação e localização dos planetas, procure localizá-lo em relação à Lua. Com este objetivo convém consultar a lista dos fenômenos astronômicos de um Anuário Astronômico.

 

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